MAJOR ART FERNANDO JOSÉ SOARES
DA CUNHA MATTOS,
EXÉRCITO BRASILEIRO
Introdução
A evolução da AAAe corresponde, de modo lógico, à evolução da ameaça aérea, semelhante à relação bélica clássica “canhões x couraça”2, que elevou o alcance de atuação operacional do armamento antiaéreo (AAe), acompanhando o mesmo aumento do teto das aeronaves. Assim surgiu outra AAAe “especializada”, à época da II Grande Guerra, constituída por canhões de maior calibre para combater as vagas de bombardeiros em ataque aos principais centros industriais e — infelizmente — populacionais do inimigo. Como está estruturada então a ameaça nos presentes dias e quais desafios se apresentam às moderna e futura AAAe?
Na presente análise, serão apresentados alguns problemas relativos às AAAe de média (acima dos 3.000 até 15.000m) e grande altura (acima dos 15.000m), para concluir sobre o atual papel do sistema de AAAe dentro do sistema de defesa aeroespacial (D Aepc), tanto no Teatro de Operações (TO)3 como na Zona do Interior (ZI).4
A Ameaça
Vetor de valor crescente na decisão dos conflitos bélicos, se é ainda verdade o jargão “que o sujeito com a baioneta no fuzil é quem retira o inimigo da toca e o obriga a assinar o tratado de paz”, o poder aéreo transformou a face da guerra decretando, no mínimo, quem vai deixar de perdê-la, como na vitória britânica durante a “Batalha da Inglaterra”, em 1940.
O peso específico do poder aéreo na balança da vitória é, muitas vezes, medido apenas nas tonelagens de bombas lançadas sobre o adversário e em relatórios de danos causados. Mas o que dizer então do imenso fluxo de transporte aéreo que possibilitou, em prazo recorde, o início da Operação Desert Shield? Ou ainda das preciosas vidas de expe-rientes pilotos resgatados pelas equipes de salvamento aéreo em diversos conflitos? Das operações aeroterrestres capazes de, desde Creta, influir decisivamente nas campanhas militares?
O aumento quantitativo e qualitativo dos meios de detecção (radares) fez com que as técnicas de penetração à baixa altura, acompanhadas de eficazes contramedidas eletrônicas (CME), se tornassem quase que obrigatórias para os sucesso de um ataque aéreo. A AAAe de baixa altura então proliferou imensamente, como resposta óbvia ao perfil da ameaça na décadas de 60, 70 e 80. A massa dos sistemas de armas desenvolvidos então, como os diversos mísseis portáteis, canhões AAe autopropulsados ou sistemas de mísseis de curto alcance visavam a faixa de baixa altura.
Os anos 90 trouxeram, no entanto, uma ameaça aérea muito mais capacitada a atacar alvos na superfície, expondo-se cada vez menos às defesas AAe de baixa altura, mesmo quando do uso de munições não-guiadas. Novas técnicas de ataque, possibilitadas por sistemas de navegação e ataque de precisão inigualáveis, para não falar da tecnologia furtiva (stealth), colocaram as aeronaves a salvo do imenso aparato de AAAe à baixa altura criado para combatê-las nas décadas anteriores. A eficácia latente desses sistemas de AAAe foi entretanto assinalada no Golfo, ao examinarmos em detalhe as baixas entre as aeronaves Tornado, no início da campanha aérea.
É óbvio que essa capacidade é inerente apenas às Forças Aéreas dotadas da sofisticação tecnológica necessária; as que não a possuem, porém, podem adquiri-la a curto prazo, por acordos de produção conjunta, compra, ou mesmo pela repotencialização de aeronaves mais antigas, dotando-as do equipamento necessário, à venda no mercado internacional.
À parte disso tudo, o emprego de mísseis balísticos táticos demonstrou a importância que esse armamento tem, como ameaça, no moderno campo de batalha. A lembrança dos Patriots interceptando os mísseis Scud iraquianos traz a reflexão de um importante papel a ser desempenhado também pela AAAe, nas faixas de altura superiores.
A AAAe
Um eficiente sistema de AAAe sempre procurou, independentemente do estágio presente da ameaça, cobrir todas as faixas de altura, com armamentos diversos (canhões e mísseis), dotando de sensores também diversos e de comunicações eficazes. Assim estruturado, seja no TO ou na ZI, o sistema estaria complementando corretamente o sistema maior, de D Aepc, na manutenção quer da superioridade aérea, quer da soberania no uso do espaço aéreo nacional.
Nos dias atuais, voltando ao velho ciclo de ação e reação, a AAAe busca uma maior eficácia contra os vetores aéreos trafegando — e atacando — acima dos 3.000m. A partir daí, porém, a AAAe divide o espaço aéreo com a aviação de caça amiga na interceptação das aeronaves hostis, causando uma inevitável necessidade de coordenação entre ambos os atuadores, AAAe e caça de interceptação.
O aumento quantitativo e qualitativo dos meios de detecção (radares) fez com que as técnicas de penetração à baixa altura, acompanhadas de eficazes contramedidas eletrônicas (CME), se tornassem quase que obrigatórias para os sucesso de um ataque aéreo.
Surge daí a questão de não ser mais inte-ressante então investir em aeronaves de caça, principal atuador da D Aepc, em detrimento de mais AAAe, essa sempre estática, tendo de aguardar que o inimigo se apresente para poder agir.
As respostas a essa pergunta surgem de algumas considerações, a saber: a AAAe não substitui a defesa aérea, mas a complementa; aeronaves necessitam, na quase totalidade dos casos, de pistas e bases para operar; manter aeronaves suficientes em constante alerta no ar demanda um enorme gasto de recursos; algumas ameaças específicas, como os mísseis balísticos táticos ou mísseis de cruzeiro, como o Tomahawk, são alvos apropriados para a AAAe, de grande e baixa altura, respectivamente.
Conclusão
Concluir sobre a evolução da tecnologia tem se mostrado muitas vezes arriscada; pode-se inferir, contudo, dentro da perspectiva da evolução da ameaça, que as AAAe de média e grande alturas terão um papel mais relevante nos anos vindouros; que novas técnicas de sensoreamento de vetores aéreos hostis, dotados de tecnologia stealth, se farão cada vez mais necessárias; novas contra-contramedidas eletrônicas (CCME), para o equipamento AAe, serão vitais na sobrevivência e flexibilidade de emprego e que comunicações redundantes e eficientes, interfaceadas com os sistemas da Força Aérea são o esteio da coordenação e do controle do sistema da D Aepc.
O Brasil, através da FAB, vem, desde 1980, implantando paulatinamente um sistema de D Aepc capaz de cobrir todo o imenso território nacional.5 Continuar a participar desse sistema deve ser, para o Exército Brasileiro, missão prioritária e indelegável na manutenção da soberania da Pátria, dever primeiro do militar de qualquer nação.
Notas
1. Dentro da doutrina de AAAe do Exército Brasileiro.
2. Refere-se à clássica disputa nas marinhas antigas onde a cada série de canhões mais poderosos correspondia ao lançamento de navios mais blindados e assim ao surgimento de canhões ainda mais potentes, num ciclo contínuo.
3. Parte do teatro de guerra necessária à condução de operações militares predominantemente terrestres, incluso seu apoio logístico.
4. Parte do território nacional não incluída em um teatro de operações (EMFA).
5. SISDABRA — Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro; unidades de AAAe do Exército Brasileiro são elos permanentes do sistema.
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O Major de Artilharia Fernando José Soares da Cunha Mattos, do Exército Brasileiro (formado em 1982 pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN)) possui os cursos de Artilharia de Costa e Antiaérea (1986) e de Aperfeiçoamento de Oficiais (1992). Foi instrutor de Guerra Eletrônica de Não-comunicações na Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea entre 1987 e 1991; e Instrutor-Chefe da Seção de AAAe da mesma escola em 1996. Atualmente cursa o 20 ano da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro.









